quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobre o vídeo clip da Patti Smith: Smells Like Teen Spirit





Angústias que sempre estarão presentes, sentidos sempre por se fazerem e se romperem, um gato preto caminha a sua animalidade entre os instrumentos musicais, isso é bem simbólico, uma cabeça de cera com uma expressão apática, com “o gosto oco do humano”. 
Começo assim a falar sobre o Video clip da Patti Smith com a canção Smells Like Teen Spirit, buscando entender, na verdade, porque ele tanto me toca. Vou dizer mais o que sinto, já que pouco sei sobre rock e sobre esta canção do Kurt Cobain. Para isso, contudo, preciso contextualizar um pouco a gênese desta canção. Que os amigos e amigas que entendem mais de rock me corrijam se eu estiver errada sobre as informações aqui prestadas.
O Kurt Cobain, que nasceu em 1967 (suicidando-se em 94) foi compositor, fundador e vocalista da banda Nirvana que teve entre suas principais composições, esta do vídeo, Smells Like Teen Spirit. A banda é considerada por muitos como pertencente ao rock alternativo, grunge, surgida na década de 80/90 e que tinha como características o sarcasmo, a angústia, a apatia, o trato de temas como alienação social, liberdade, e uma estética despojada, enfim, retratando bem o tom de uma geração sufocada artisticamente, socialmente, e que, nesse sentido, já vinha sofrendo influência do punk rock da década de 70, que também já trazia essa carga revolucionária, na contracorrente da estética convencional musical, nas atitudes e modos de ser e estar no mundo. Aliás, essa luta é infinda, ainda bem ...rsrs, ora mais forte ora menos...enfim...
Bom, mas o vídeo clip desta canção do Nirvana, feito pela Patti Smith, que nasceu em 1946, da qual sou fã, surgiu em 2007, anos após o falecimento do Kurt e depois desta canção já ter sido interpretada por inúmeros cantores do rock, inclusive do Brasil. Então, vemos aí uma releitura da grande Patti que me deu uma boa sacudida, digamos assim, e porque não, uma angústia boa, vi aí uma resistência. Tocou-me ainda mais depois que li a biografia dela, Só Garotos, recomendo, onde nos tornamos verdadeiros cúmplices da sua jornada como cantora, o início de sua carreira, todo o cenário que permeava uma geração do rock americano na década de setenta, a efervescência musical, novos valores, transgressões, inovações, e sua trajetória como uma grande mulher, uma das mais influentes do rock, que trouxe um lado feminista e intelectual para a musica punk, aliás, ela é conhecida como a “poetisa do punk”. Como a proposta do punk rock americano trazia canções que também tratavam de temas sociais, políticos, anarquistas, revolucionários, niilistas ... e tinham um visual agressivo, para fugir mesmo de qualquer padrão, e a Patti já estava nessa estrada há tempos quando do lançamento desta canção, talvez, pela sua maturidade de anos na cena musical do rock, e nas viagens todas dessas gerações, penso que, se o Kurt canta esta canção com uma carga angustiada, revolucionária, transgressora, de modo mais explosivo, incendiário, agressivo, vejo no clip da Patti uma fidelidade à proposta do Kurt, só que com uma pegada talvez ainda mais pesada: assim, repito, angústias que sempre estarão presentes, sentidos sempre por se fazerem e se romperem, um gato preto caminha a sua animalidade entre os instrumentos musicais, isso é bem simbólico, uma cabeça de cera com uma expressão apática, com “o gosto oco do humano” como digo em uma poesia minha, a canção está mais arrastada, meio “deprê” mesmo, e a figura de Patti totalmente e imensamente ela mesma, fiel à sua força e à sua estética nada convencional, com sua voz rouca imprimindo ainda mais solidão à canção, seus gestos pausados e firmes de quem já viu muito e ainda quer ver, do alto da sua maturidade pessoal e musical. O resultado é essa bomba de clip, esse soco no estômago, esse deleite para os que não se entregam às convenções, os inadequados, resistentes, onde, de alguma forma, me situo, acho que talvez seja isso e muito mais que tanto me toca nele. 




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