quinta-feira, 2 de abril de 2015

Sobre o filme A Família Bélier




Não é por nada não, mas as comédias francesas, pelo menos as que tenho visto, são de uma delicadeza sem igual. São comédias, não porque nos façam dar gargalhadas, não, elas não costumam ser recheadas de caricaturas e situações artificiais, exageradas, para forçar o riso, como vimos em muitas comédias por aí. Bom, eu estou falando neste momento da comédia francesa “A Família Bélier” (original: La Famille Bélier). O filme consegue mostrar o cotidiano de uma família, digamos que, inusitada, sem exageros ou vitimismo, fazer denúncias, nos emocionar e nos fazer rir. São situações delicadas de amor, companheirismo, ideais, conflitos, trabalho cotidiano e denúncias graves, mas, de tal maneira tratadas, que fazem emergir muitas vezes em nós o riso. Em geral, não o riso do engraçado propriamente, mas o riso do desconcerto, do desalojamento, o riso que muitas vezes sai no lugar de uma lágrima, que às vezes sai também. O segredo, talvez, seja tratar com leveza e uma pitada de dramaticidade, assuntos de grande profundidade. Situações de determinado cotidiano que ganham um tom aparentemente engraçado, daí que rimos, mas rimos sangrando, rimos nos emocionando profundamente. Trata-se da arte de dizer, sem dizer, de nos levar para determinados lugares na alma, do contato com a nossa difícil condição humana, sem a banalidade explicita que rouba qualquer possibilidade de emoção ou indignação. O segredo é nos levar para lá, para as regiões mais sensíveis do nosso ser, onde experienciamos uma cumplicidade silenciosa, junto a essas situações “engraçadas”, e que, sem qualquer aviso, desenham em nosso rosto, esse riso divertido e emocionado, uma lágrima vagarosa, meio contida, e esse contentamento de termos sido suspensos mais uma vez pela arte!!!! E o cinema, quando bem feito, consegue isso com maestria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário