quinta-feira, 2 de abril de 2015


Solidão, amor, cidade árida, vidas áridas. No filete mais submerso da corrente sanguínea um jardim imenso de delicadeza embrutecida, mas as paisagens desérticas, as estradas nuas, a vida crua. A inocência e as fantasias da infância ainda insistiam em seu coração, ainda, ainda e ainda. Melhor fugir ... melhor partir... partida... partida....e partida. É o que tenho a dizer sobre essa navalhada certeira, essa nota alta afinadíssima doendo de dar gosto, esse filme-poesia, lavando os olhos áridos, antes de voltar pra rua. Ah! Antes que eu esqueça, e se existe alguma verdade em falarmos por último o que tem muita importância, não posso de jeito nenhum, pelo sim ou pelo não, cometer o pecado de não falar da canção do filme, “Everything I Own” . Trata-se de uma canção escrita por David Gates e gravada em 1972 pela banda Bread. Logo a cantora Diana gravou uma versão brasileira, a qual fez parte da trilha sonora desse filme “O céu de Suely”, lançado em 2006 e dirigido por Karim Ainouz. A canção é quase que, digamos, a “alma” do filme, signo, metáfora, desvelamento do oculto, enfim... fiquei a pensar se o filme chamou a canção ou a canção chamou o filme!!!

Sobre o filme "O segredo dos seus olhos"





“Os olhos falam... Os olhos falam demais, melhor que se calem! Às vezes é melhor não olhar!” 

Trecho de um diálogo do filme argentino “O segredo dos seus olhos”, (2009), no original “El Secreto de Sus Ojos”, do diretor Juan José Campanella. Mais um filme baseado em um livro, “La Pregunta de sus Ojos”, de Eduardo Sacheri, e que deve ter tido boa saída nas livrarias, mas isso é outra seara que não convém discutirmos aqui, sob pena de macularmos sua beleza, a maravilhosa direção, interpretação dos atores, trilha sonora, enfim... O filme, uma busca policial, perpassando uma busca amorosa: “Isso vai ser complicado!”, diz-se algumas vezes no filme... Mas se refere a uma ou a outra? Um assassino se denuncia pelo olhar assim como um amor? Uma metáfora, tratada de maneira genial, das buscas policiais e amorosas, as fugas, esconderijos, temores, enfrentamentos... Para mim, um excelente filme!!! O final então... emocionante!!

Sobre o vídeo clip da Patti Smith: Smells Like Teen Spirit





Angústias que sempre estarão presentes, sentidos sempre por se fazerem e se romperem, um gato preto caminha a sua animalidade entre os instrumentos musicais, isso é bem simbólico, uma cabeça de cera com uma expressão apática, com “o gosto oco do humano”. 
Começo assim a falar sobre o Video clip da Patti Smith com a canção Smells Like Teen Spirit, buscando entender, na verdade, porque ele tanto me toca. Vou dizer mais o que sinto, já que pouco sei sobre rock e sobre esta canção do Kurt Cobain. Para isso, contudo, preciso contextualizar um pouco a gênese desta canção. Que os amigos e amigas que entendem mais de rock me corrijam se eu estiver errada sobre as informações aqui prestadas.
O Kurt Cobain, que nasceu em 1967 (suicidando-se em 94) foi compositor, fundador e vocalista da banda Nirvana que teve entre suas principais composições, esta do vídeo, Smells Like Teen Spirit. A banda é considerada por muitos como pertencente ao rock alternativo, grunge, surgida na década de 80/90 e que tinha como características o sarcasmo, a angústia, a apatia, o trato de temas como alienação social, liberdade, e uma estética despojada, enfim, retratando bem o tom de uma geração sufocada artisticamente, socialmente, e que, nesse sentido, já vinha sofrendo influência do punk rock da década de 70, que também já trazia essa carga revolucionária, na contracorrente da estética convencional musical, nas atitudes e modos de ser e estar no mundo. Aliás, essa luta é infinda, ainda bem ...rsrs, ora mais forte ora menos...enfim...
Bom, mas o vídeo clip desta canção do Nirvana, feito pela Patti Smith, que nasceu em 1946, da qual sou fã, surgiu em 2007, anos após o falecimento do Kurt e depois desta canção já ter sido interpretada por inúmeros cantores do rock, inclusive do Brasil. Então, vemos aí uma releitura da grande Patti que me deu uma boa sacudida, digamos assim, e porque não, uma angústia boa, vi aí uma resistência. Tocou-me ainda mais depois que li a biografia dela, Só Garotos, recomendo, onde nos tornamos verdadeiros cúmplices da sua jornada como cantora, o início de sua carreira, todo o cenário que permeava uma geração do rock americano na década de setenta, a efervescência musical, novos valores, transgressões, inovações, e sua trajetória como uma grande mulher, uma das mais influentes do rock, que trouxe um lado feminista e intelectual para a musica punk, aliás, ela é conhecida como a “poetisa do punk”. Como a proposta do punk rock americano trazia canções que também tratavam de temas sociais, políticos, anarquistas, revolucionários, niilistas ... e tinham um visual agressivo, para fugir mesmo de qualquer padrão, e a Patti já estava nessa estrada há tempos quando do lançamento desta canção, talvez, pela sua maturidade de anos na cena musical do rock, e nas viagens todas dessas gerações, penso que, se o Kurt canta esta canção com uma carga angustiada, revolucionária, transgressora, de modo mais explosivo, incendiário, agressivo, vejo no clip da Patti uma fidelidade à proposta do Kurt, só que com uma pegada talvez ainda mais pesada: assim, repito, angústias que sempre estarão presentes, sentidos sempre por se fazerem e se romperem, um gato preto caminha a sua animalidade entre os instrumentos musicais, isso é bem simbólico, uma cabeça de cera com uma expressão apática, com “o gosto oco do humano” como digo em uma poesia minha, a canção está mais arrastada, meio “deprê” mesmo, e a figura de Patti totalmente e imensamente ela mesma, fiel à sua força e à sua estética nada convencional, com sua voz rouca imprimindo ainda mais solidão à canção, seus gestos pausados e firmes de quem já viu muito e ainda quer ver, do alto da sua maturidade pessoal e musical. O resultado é essa bomba de clip, esse soco no estômago, esse deleite para os que não se entregam às convenções, os inadequados, resistentes, onde, de alguma forma, me situo, acho que talvez seja isso e muito mais que tanto me toca nele. 




Sobre o filme A Família Bélier




Não é por nada não, mas as comédias francesas, pelo menos as que tenho visto, são de uma delicadeza sem igual. São comédias, não porque nos façam dar gargalhadas, não, elas não costumam ser recheadas de caricaturas e situações artificiais, exageradas, para forçar o riso, como vimos em muitas comédias por aí. Bom, eu estou falando neste momento da comédia francesa “A Família Bélier” (original: La Famille Bélier). O filme consegue mostrar o cotidiano de uma família, digamos que, inusitada, sem exageros ou vitimismo, fazer denúncias, nos emocionar e nos fazer rir. São situações delicadas de amor, companheirismo, ideais, conflitos, trabalho cotidiano e denúncias graves, mas, de tal maneira tratadas, que fazem emergir muitas vezes em nós o riso. Em geral, não o riso do engraçado propriamente, mas o riso do desconcerto, do desalojamento, o riso que muitas vezes sai no lugar de uma lágrima, que às vezes sai também. O segredo, talvez, seja tratar com leveza e uma pitada de dramaticidade, assuntos de grande profundidade. Situações de determinado cotidiano que ganham um tom aparentemente engraçado, daí que rimos, mas rimos sangrando, rimos nos emocionando profundamente. Trata-se da arte de dizer, sem dizer, de nos levar para determinados lugares na alma, do contato com a nossa difícil condição humana, sem a banalidade explicita que rouba qualquer possibilidade de emoção ou indignação. O segredo é nos levar para lá, para as regiões mais sensíveis do nosso ser, onde experienciamos uma cumplicidade silenciosa, junto a essas situações “engraçadas”, e que, sem qualquer aviso, desenham em nosso rosto, esse riso divertido e emocionado, uma lágrima vagarosa, meio contida, e esse contentamento de termos sido suspensos mais uma vez pela arte!!!! E o cinema, quando bem feito, consegue isso com maestria.